O MELHOR (O PIOR FOI DELETADO) DO INFORMATIVO CULTURAL DA AJUFERGS

Como estamos agora no ar em praticamente todas as plataformas do mundo virtual, nada mais justo e recomendável que busquemos no fundo do nosso arquivo outras edições dos Informativos já divulgados. Assim, alguns fragmentos serão reeditados neste espaço “bloguístico”. Ou, como proclamou Nelson Rodrigues, citado pelo Professor Luís Augusto Fischer (“Inteligência com Dor”, p. 115), “O mesmo livro é um na véspera e outro no dia seguinte. Pode haver um tédio na primeira leitura. Nada, porém, mais denso, mais fascinante, mais novo, mais abismal do que a releitura”. Correto o pensamento do nosso Shakespeare pornográfico!

Por isso, invocando o passado, releio com um falso desinteresse o Informativo Cultural n. X

CONVERSAÇÃO

Ouso afirmar que nenhuma carreira jurídica tem em seus quadros um artista da qualidade do nosso colega Roberto Schaan Ferreira. Quanto orgulho para nós podermos conviver com um homem das letras e da música e, ainda mais, podermos conversar com ele sobre as suas realizações no mundo das artes. Compositor nativista, criou músicas frequentadas em festivais, destacando-se a canção Morocha, em parceira com Mauro Ferreira. Na literatura, é autor de uma obra que venceu o Prêmio Açoriano de Criação Literária de 2011, categoria narrativa longa. Tenho certeza que Schaan já tem o seu lugar garantido ao lado dos imortais gaúchos como Cyro Martins, Simões Lopes Neto, Luiz Sérgio Metz, Jayme Caetano Braun, Apparício Silva Rillo, Aureliano de Figueiredo Pinto e Antônio Augusto Ferreira.

Agora, esse juiz-escritor nos dá o imenso prazer de uma conversa, para trocarmos impressões sobre seu grande livro “Por que os Ponchos São Negros”.

1) Como disse o Professor Luís Augusto Fischer, o teu livro é um caso exemplar do enlaçamento entre ficção e vida real. Então, qual parte da história ou do personagem é autobiográfico?

Em algumas dedicatórias do livro tenho afirmado que é a história da minha vida que eu não vivi. Sinto-a como uma vida que poderia ter sido, ou que, em alguns aspectos, eu gostaria que tivesse sido. Desde criança sou apaixonado por cavalos e, depois, pelo campo, pela lida de campo, pela natureza (melhor: do homem solitário lançado frente à natureza). Desvendar a história, contá-la ou vivê-la foi um pouco a realização desse sonho, que talvez se misture com o desejo de liberdade (quando, na vida em sociedade, somos reféns de um emaranhado infinito de responsabilidades, compromissos, relações, objetivos, …). O fato de se passar sob um regime repressor talvez reforce essa fuga para o vazio, para a liberdade, o que, na história, carrega o paradoxo de decorrer exatamente da repressão ditatorial.

Agora, não há nada de autobiográfico. Na história propriamente, na trama, no enredo, não. Claro que vivi em ambientes semelhantes aos que dão cenário aos fatos: passei verões na fazenda do Antônio Augusto Ferreira, Rincão do Inferno, na beira do rio Camaquã; frequentei a Faculdade de Direito da UFRGS e os outros prédios universitários nos anos oitenta; morei no centro de Porto Alegre (Duque de Caxias, Demétrio Ribeiro) e, no retorno das aulas, muitas vezes jantei, bebi, ouvi músicas e até cantei no Adelaide’s. Mas é isso.  A história em si, eu não vivi. (Mas alguém viveu. Não sei quem, não sei se exatamente assim.)

2) Já foi cogitada a hipótese da tua obra virar filme?

Um escritor de Passo Fundo, Júlio Perez, me pediu autorização para fazer um roteiro baseado na história. Creio que já deve estar terminando.  Tempos atrás me mostrou a primeira versão; fiz algumas observações e ele iria fazer alguns ajustes.

3) É uma história universal que poderia ter ocorrido em qualquer lugar do mundo, já que trata de amor, política, medo e saudade?

A política, sabemos, é consequência inevitável da nossa sociabilidade.  Diz o chavão: o homem é um animal social, ou político.  Já o amor, a saudade e, até, o medo decorrem da nossa humanidade.  São de nós, para o bem e para o mal. Mas são, a princípio, suportáveis dentro dessa humanidade (ou devem ser). O que, me parece, catapulta a história a ponto de merecer ser contada é a fratura política, que fratura o amor, exaspera a saudade e impõe o medo.

Nossa especificidade humana nos confere uma virtude terrível: não vivemos no presente.  Ou melhor: vivemos o passado e o futuro, a memória e a esperança. Ao contrário dos animais, que vivem aqui e agora, nós jamais estamos aqui. Estamos o tempo todo planejando o futuro (desde o que comprar de tarde, até compromissos, objetivos e planos mais remotos) ou estamos revivendo o passado (que nos constitui intelectual e emocionalmente) e sofrendo sua perda. Essa é a nossa essência.

Por isso, temos a capacidade de um medo abstrato e de uma saudade hipotética. Sentimos saudade até do que imaginamos que poderia ter sido. E enchemos nosso medo com causas presentes (mentalmente presentes), para alimentá-lo.  As zebras pastam calmamente próximo aos leões que dormitam; só fugirão quando e se atacadas.

Nos Ponchos, como o regime político amputa seu passado e impede seu futuro, o personagem-protagonista é levado a uma certa animalidade, ao imediatismo de se manter vivo (ainda que contraditoriamente poeta, ou compreensivelmente poeta, porque vazão para sua humanidade). Talvez, o mesmo imediatismo (não quero usar animalidade, porque poderia parecer pejorativo) que comande a vida dos mendigos e do povo da rua. Em parte, certamente essas pessoas desfrutam de uma liberdade que não sociedade não permite. Só à margem da sociedade ela é possível.

Esse drama entre sociedade (no caso, sob as regras rígidas e violentas de um estado não democrático) e liberdade, a par de ser o drama humano de sempre (uns querem o capitalismo selvagem, outros querem o estado regulador e interveniente), é o que “tempera” o amor, a saudade e o medo em “Por Que os Ponchos são Negros”.

4) Já estás na produção de outro livro? Qual é o tema?

Quando terminei os Ponchos, comecei a escrever uma narrativa longa, que agora acho que estou terminando. Mas estou terminando a criação da história; depois há todo o trabalho de revisão e reescrita. (Os Ponchos, demorei mais ou menos um ano para escrever e um ano para revisar; a que estou escrevendo agora já me tomou muito mais tempo para escrever, mas certamente não demorarei tanto na revisão.) O tema? Um crime, ou a suspeita de um crime, e as tentativas, ás vezes vãs, de se descobrir a verdade ou algo próximo ao que chamamos verdade. Mas há o principal, que é a vida das pessoas (que não são poucas) e alguns dramas pessoais, verificados nos três momentos do tempo enfocados pela narrativa.

No entremeio escrevi alguns contos (três ou quatro), esses sim tendo como referência fatos ocorridos. Também gosto de me exercitar na poesia, que foi o meu início e o que me manteve literário durante estes longos e envolventes anos de advocacia, magistério e magistratura.

INDICAÇÃO DE FILME RUIM

Um dos filmes mais controversos do diretor David Lynch é “Império dos Sonhos” de 2006. Donde, esse é o filme ruim da semana: http://www.imdb.com/title/tt0460829/?ref_=nm_flmg_wr_7. Com Laura Dern, musa do diretor, é um filme dentro de outro filme mais uma família vestida de coelhos, e por aí vai. Ótima trilha sonora. Toca até Beck, “Black Tambourine”.
Confere o trailer:

Outro filme que segue esse modelo, “Cidade dos Sonhos”, de 2001, é muito bom. Mas nada se compara a suas OBRAS PRIMAS, como “Duna” de 1984, uma ficção científica feita a facão, que tem até o Sting de sunga de ferro. “Veludo Azul” de 1986, um filme maravilhoso. Com o Dennis Hopper, Laura Dern, again, com o Kyle MacLachlan (que fez “Duna” e faria o seriado de Lynch, “Twin Peaks”) e com a maravilhosa Isabella Rossellini (filha do cineasta italiano Roberto Rossellini, de “Roma, Cidade Aberta” e da atriz Ingrid Bergman). Mais ainda, “Coração Selvagem” de 1990, com Nicolas Cage e a Laura Dern é um ótimo filme!

Mas o melhor mesmo é “O Homem Elefante” de 1980. Teve várias indicações ao Oscar. O filme trata de um homem com várias deformidades físicas que é mostrado num circo de horrores na Inglaterra do século XIX. Um médico (Anthony Hopkins) o resgata e tenta inseri-lo em um mundo cuja principal reação ao seu rosto deformado é de choque e repulsa.

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Para encerrar, um comentário da época sobre “Veludo Azul”, (CALIFORNIA MAGAZINE): “BLUE VELVET is a mystery…a masterpiece…a visionary story os sexual awakening, of good and evil, a trip to the underworld.”

Bom (ou ruim) filme!

MÚSICA DA SEMANA

Tem uma banda escocesa muito boa chamada The Primal Scream. Inclusive tocou no Opinião em Porto Alegre no dia 26 de setembro de 2011, em comemoração aos 20 anos do lançamento do seu disco mais famoso, SCREAMADELICA. Esse álbum saiu nas lojas de discos da Grã-Bretanha no dia 23 de setembro de 1991. Um ano realmente importante para o rock, já que foi o ano de lançamento de outros discos que se tornaram imortais: Nevermind do Nirvana, Black Álbum, do Metallica, Achtung Baby, do U2 e Out of Time, do R.E.M. Screamadelica é o terceiro álbum de estúdio dessa banda e fundiu rock, blues, soul music com ritmos eletrônicos dos seus trabalhos anteriores.

A banda decidiu chamar o DJ Andrew Weatherall para remixar a música “I’m Loosing More Than I’ll Ever Have” (do álbum anterior). O resultado foi “Loaded”. Reduzida ao essencial, foi preenchida com novos sons e com acréscimo de samples do grande ator Peter Fonda no filme “The Wild Angels”. É esse o diálogo travado no filme e reproduzido na música: “Just what is it that you want to do? We wanna be free, We wanna be free to do what we wanna do… We’re gonna have a good time, we are gonna have a party”. Que filme! De 1966, com Nancy Sinatra:

Pelo jeito, o pessoal do The Primal Scream gosta mesmo de cinema, porque em 1997 eles lançaram o álbum Vanishing Point, que é o título de um road movie sensacional de 1971 que no Brasil recebeu o nome de “Corrida Contra o Destino” (tem também o remake de 1997 com Viggo Mortensen):

Até mesmo tem uma música nesse disco chamada “Kowalski”, nome do personagem principal do filme (quem viu o filme “À Prova de Morte” de 2007 do diretor Quentin Tarantino, lembra da referência a esse filme e ao personagem Kowalski).

A música desta semana do The Primal Scream é “Some Velvet Morning”, com a supermodelo Kate Moss nos vocais (do disco “Evil Heat” de 2002):

Trata-se de um cover. A versão original é de 1967, escrita por Lee Hazlewood e quem canta com ele é a filha do Frank Sinatra, Nancy Sinatra:

Bom som!

CITANDO E RECITANDO

 A noite é cancha suprema dos que se avistam co’a morte: avança seus contrafortes num passo de soberana; a noite, velha cigana sempre agourando má sorte. Pelo noturno mistério, todos os gatos são pardos; os cachorros são mais brabos, porque o pior não é visto; e a noite traz sempre um susto noutro susto acolherado. Quando vigora o silêncio, quem se alvorota se mostra; a frente se iguala às costas, porque a visão não perfura; a noite, velha impostora, onde a vida é uma proposta. Rasgando o ventre da furna, sobressaltam-se as adagas. Logo, logo um corpo traga o brilho pelas entranhas. A noite só joga às ganhas; a noite aposta e não paga. Sabem as gentes do escuro que há que manter seu segredo. Se o dia não vem tão cedo e a noite não tem janelas, ninguém escapa do enredo. Há que se agir sem apuro; há que pôr freio nos nervos; há que vestir-se com ela. Por isso os ponchos são negros.
(Roberto Schaan Ferreira, “Por Que Os Ponchos São Negros”, p. 158).

Bom final de semana!

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