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Solidão. Breve reflexão em domingo de chuva.

Fonte da imagem: G1

Fonte da imagem: G1

Pouco se fala da solidão em tempos de redes sociais.
Interessante.
É como se esta condição que acompanha o ser humano desde a sua gênese tivesse desaparecido do nosso cotidiano.
Acredita-se que em razão do fato de que muitos passam horas a fio nas diversas ferramentas de comunicação virtual que existem na Internet, o mal da solidão deixou de existir.
Creio que não.
Penso inclusive que nunca na história estivemos tão sós.
O avanço da ciência e a consciência que nós humanos passamos a ter da nossa real insignificância perante o mundo e a vida, faz com que um sentimento de apequenamento tome conta do nosso espírito, levando muitos ao isolamento emocional e social, mesmo que convivam diariamente com muitos semelhantes e sejam vistos, inclusive, profissional e socialmente como pessoas “normais”, sem maiores problemas.
Contudo, ao desligar os equipamentos e perceber a ausência física e emocional de semelhantes a que se queira bem é que a solidão e sua irmã a depressão surjam na vida de muitos.
Evidente que nem todo deprimido é solitário e nem todo solitário sofra de depressão, mas não é raro que ambas as situações andem juntas.
Sentimentos; esse o ponto central do ser humano.
Se a sociedade humana evoluiu com a ciência e isso é um fato, não é menos verdade que as crianças que hoje nascem são da mesma natureza daquelas que nasciam a 200 anos e portanto seus desejos, afeições e inquietudes serão moldadas pelo meio familiar e social.
Por outro lado poderia se aquilatar que a multiplicidade de relações e modelos familiares hoje existentes e aceitos  poderiam facilitar a inserção familiar e social de qualquer indivíduo a sociedade ou a qualquer modalidade familiar.
Contudo não é o que se observa, a solidão grassa em qualquer meio social, familiar ou de gênero não havendo qualquer discriminação.
Evidente que episódios de solidão ocorrem na vida de todos e até é salutar que em alguns momentos ocorra um breve recolhimento para se fazer uma análise, um balanço mesmo do andar da própria vida.
Aqui não. Do que escrevo é aquela solidão que acompanha todo o ser humano desde sempre, aquela sensação de que fomos jogados nesse mundo essencialmente sós e que para nele viver construímos estruturas mentais como fé religiosa e  ideologia política.
Esse parece o maior carma humano, necessitamos do outro para vivermos bem, mesmo quando seja o outro que nos faça mal.
Se o inferno são os outros, como já disse Sartre, não é menos verdade que a nossa incapacidade para a autocrítica e a dificuldade para o exercício da coerência entre atos e palavras nas mais diversas searas da vida contribui para o esfacelamento das relações e o recolhimento de cada um em seu próprio mundo.

Os textos publicados não refletem necessariamente a opinião da AJUFERGS. O blog é um meio de convergência de ideias e está aberto para receber as mais diversas vertentes. As opiniões contidas neste blog são de exclusiva responsabilidade de seus autores.

2 Comentários

  1. Ana Inés

    Bonita reflexão, amigo Adel. Somos seres gregários e desejantes; ao mesmo tempo em que a solidão é condição inafastável da nosa existência, precisamos do contato, do apreço uns dos outros… e temos esquecido disto nesta época de tantas polarizações, em que o contato virtual pretende substituir o real.

  2. Lademiro

    Ótima ponderação Adel. Parabéns.

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