Ficha Técnica:
Sleeping with the Enemy
Autor: Hal Vaughan
Tradução: Denise Bottmann
Cia das Letras, 2011. São Paulo.
Biografia, Sec. XX, apanhado de vida e carreira de uma mulher empreendedora.

22

A autora é jornalista americana, foi correspondente estrangeira em Paris. Pesquisou registros e documentos históricos, realizou entrevistas, vasculhou arquivos oficiais, lançando luzes sobre uma faceta pouco conhecida da vida de Coco Chanel, a sempre grande dama da alta costura. Aspectos constrangedores são revelados, inclusive envolvendo figuras de destaque da política e integrantes da realeza europeia.

Mal sepultada em Lausanne, na Suíça, e às vésperas de receber uma homenagem póstuma patrocinada pela esposa do Presidente Pompidou, sua antiga cliente e amiga, revelou-se o aspecto sombrio de sua trajetória de vida. A homenagem teve que ser cancelada, face aos rumores de ter sido ativa colaboracionista alemã, e mantido um relacionamento amoroso com o belo barão Von Dincklage, vulgo Spatz, agente do serviço secreto alemão “Abwehr”.

Logo ao fim da guerra, entre 1944 a 1954, saiu discretamente de cena, refugiando-se na Suíça. Entre seus amigos íntimos, um lorde inglês, Igor Stravinsky, Vaslav Nijinsky, Dimitri Romanov (primo do czar Nicolau II), o Duque de Windsor e Wallis Simpson, e Duque de Westminster (Bender) e ainda Winston Churchill. Aspecto interessante é a reação dos sócios, a família Wertheimer, de origem judia, detentora majoritária da marca Chanel nº 5, perfume icônico até hoje. A aura do nome Chanel, um luxo eterno, segundo Gilles Lipovetsky, em “Luxo Eterno”, Cia das Letras.

Para não prejudicar o negócio milionário, preferiram esconder o profundo antissemitismo da Madame Chanel, comprando o silêncio dos que a denegriam. Chanel teria sido acionada pela Gestapo para encaminhar um acordo secreto com os ingleses, e teria agido concretamente no sentido de convencer seus amigos britânicos. O livro é ilustrado com fotos da época. Há referência ao processo e julgamento da estilista pelo Juiz Serre e Leclercq, com a transcrição de alguns aspectos das decisões. O Judiciário também protegeu madame Chanel, e a poderosa indústria francesa da moda, e a relação privilegiada da mulher empreendedora no mercado.

O processo arrastou-se e encerrou-se sem concluir pela sua suposta atividade colaboracionista.

Chanel influenciou a moda por meio século, marcando o conceito de discreta elegância até hoje. Quem não tem um “pretinho básico”, colares de pérola e um taier Chanel, com debruado contrastante e uma camélia na lapela? “Uma mulher que não usa perfume não tem futuro”, é a frase cunhada por Paul Valéry, amigo de Chanel. Chanel, uma mulher com preciso faro para amizades e um extraordinário talento e bom gosto.

Vale a leitura, assistir também ao filme “Coco antes de Chanel” (a infância e a juventude da estilista) e “Chanel e Stravinsky”. Indico para empreendedores, em especial, pelo exemplo da Família Wertheimer que teve a exata compreensão sobre o valor do seu negócio, racionalizando e tomando a decisão de não prejudicar a imagem da marca “Chanel nº 5”.

Outra reflexão é de que a magistratura tem histórica dificuldade em julgar as figuras nacionais de destaque. Ainda vale considerar a trajetória de Madame Chanel como uma forte influenciadora na liberação e construção da História da Beleza, citada em diversas passagens e na cronologia de Umberto Eco, Editora Record, 2009. Recomendo muito, a história de uma mulher que venceu o destino pobre e anônimo que se anunciava no início da trajetória.

Os textos publicados não refletem necessariamente a opinião da AJUFERGS. O blog é um meio de convergência de ideias e está aberto para receber as mais diversas vertentes. As opiniões contidas neste blog são de exclusiva responsabilidade de seus autores.