Ficha Técnica:
Autor: Yu Hua
Tradução: Donaldson M. Garschagen
Cia das Letras, 2011. São Paulo.
Ficção, Direito à Saúde, doação de sangue. Sec. XX, China.

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O autor nasceu em Zhejiang, em 1960, e foi o primeiro escritor chinês a receber o prêmio James Joyce Foundation Award. Na Itália, foi agraciado com o prêmio Grinzane Cavour.

Tive a atenção despertada pelo tema desenvolvido,  pois se refere a um aspecto do direito fundamental à saúde. Trata-se de uma ficção ambientada nos anos 50, em que a China, um país de cultura agrícola milenar, foi levada à fome, deixando milhares de camponeses privados de seu sustento básico. Os mais pobres recorriam a um “mercado livre” de sangue. Em instalações imundas podiam vender sangue, adquirido por farmacêuticas e outros bancos de abastecimento. No início dos anos 2000, a tal política provocou a infecção por HIV e hepatite de comunidades inteiras. Xu Sanguan é um modesto operário de uma fábrica de seda, que recorre à venda de sangue cada vez que sua família está em dificuldade. Dinheiro de sangue não é o mesmo que dinheiro de trabalho. É entretecida uma conflituosa relação pai e filho, com diálogos sumários e precisos. Também oferece um retrato da condição da mulher na China. Muito bom. Esta ficção pode ser utilizada para fazer uma reflexão sobre a importância das políticas públicas em matéria de saúde.

Uma reflexão sobre os direitos humanos na China em data muito recente. Há um lado oculto e potencialmente explosivo no império chinês. Há problemas sociais sistêmicos, serviços de saúde insuficientes, estruturas familiares distorcidas, resultado da política pública do filho único.

As consequências das políticas públicas desastrosas e da permissividade em alguns aspectos, o mercado de sangue era “livre”, durante os anos do denominado “grande salto adiante” (1958 a 1962). Na ocasião 30 milhões de pessoas morreram de fome. A Revolução Cultural, que se deu de 1966 a 1976, chegou a fechar escolas e queimar livros, os únicos permitidos ler eram as obras selecionadas de Mao Tse Tung e o Livro Vermelho.

O autor teve obras censuradas, entre elas a que comentamos. A obra “Viver” o projetou internacionalmente. “Nunca mudei nada por causa da censura. Se um livro é proibido, eu sempre posso lançá-lo em Taiwan”. Uma leitura importante no gênero tremendismo.

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