Ficha Técnica:
Título: “Lustrum”.
Autor: Robert Harris,
Tradução: Domingos Demasi.+
Trilogia de Cícero, Livro II, segue ao Imperium.
Editora: Record, 2010, Rio de Janeiro.
Gênero: Ficção sobre fundo histórico, República Romana, 265 a 30 a.C.

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Robert Harris retoma a trajetória de Cícero, Marco Túlio Cícero (106 aC/ 43 aC), pela voz do escravo Tiro. Cícero consolidou prestígio, fama e fortuna como advogado e orador. Muitos de seus discursos são lembrados hoje. Buscava sempre o melhor prestígio de Roma e a convivência em paz e concórdia. Pregava costumes moderados e deu ênfase aos aspectos morais da vida e da política.

A narrativa prossegue, e acompanhamos o notável advogado com toda sua inteligência, arte e astúcia para evitar que Roma sucumba ao crime, ditadura, alianças espúrias e deslealdades. É o traiçoeiro e violento mundo da política romana descortinado à medida que avançamos na leitura. Roma se expandiu em influência, riqueza e domínios territoriais. Sete homens lutam pelo poder: César, jovem e cruel; Pompeu, o grande General da República; Crasso, o romano com grande fortuna; Catão, político inflexível; Cláudio, ambicioso e sem limites; Catilina, o psicopata, e Cícero, poderoso cônsul.

Nesta edição há um mapa da Roma Republicana com os principais prédios e acidentes geográficos, cenário que podemos percorrer hoje, e é muito interessante. Revela-se o pacto sinistro, com sacrifício humano engendrado por Catilina, para constrangimento dos aliados. As conspirações de Cesar, as pompas fúnebres romanas a Metelo Pio, pontífice máximo, clã político mais poderoso de Roma. Simbolicamente é a despedida da velha República. A compra de votos feita por César com o dinheiro fornecido por Crasso. O Manual de Sobrevivência do inflexível Catão: nunca se comova com favores; nunca concilie; nunca esqueça um erro; nunca faça distinção entre coisas que são erradas – o que é errado é errado. Ao que acrescenta Cícero “mas se quiser governar esta República, precisará de mais livros em sua biblioteca…”

Acompanhamos Pompeu, acampado ao sul da Judéia, perto de Petra, cogitando sobre o destino dos exércitos: acertar as coisas com a Partia, ou tomar o Egito. Pompeu prefere retirar-se e voltar a Roma, “com 40 mil legionários”! Um grande problema para a República.

O Senado, por óbvio, o prefere em campanha. As atitudes de Terência, mulher de Cícero, que “não mostrava a habitual deferência ao esposo”. As amantes de César e a mulher de César. O palácio de Lúculo, perto de Capri, onde os romanos passavam o inverno. Peixes com anéis de ouro nas nadadeiras e prisioneiros mantidos nos calabouços à espera do Triunfo. O julgamento de Licínio Murena, acusado de corrupção eleitoral, acontecimento grandioso com Cícero na defesa. O perigo das discussões que meandram, assuntos desviados do foco, pois “em política não há vitórias duradouras, há apenas uma desapiedada e desgastante antecipação de acontecimentos”. O discurso de Catão na hora de extremo perigo para a República “somente vigilância e ação conseguem alcançar o sucesso”. Uma sentença de morte rapidamente executada, antecedida pela custódia dos condenados.

O “carnifex” e a câmara de execução. O anúncio da execução “eles deixaram de viver”, nunca pronunciar a palavra “morte” no fórum. A profanação na cerimônia religiosa das Virgens Vestais. O retorno de César que ultrapassa mensageiros e entra em Roma sem a autorização do Senado. Concorre a cargo eletivo embora ainda possuísse “imperium”, o que o tornava inelegível.

César é eleito cônsul, com votação unânime de todas as centúrias, fato raro, o primeiro a consegui-lo foi Cícero. A polêmica em torno da reforma agrária nas terras públicas da Campônia. Terra aos legionários e pobres de Roma, manobra populista de César. Catão combate a cleptocracia. A instalação do triunvirato César, Pompeu e Crasso, políticos oportunistas, tudo em seu próprio benefício. Processo contra Célio Rufo por traição. Ocupação da Assembléia e angúrios desfavoráveis. A fuga pela porta Capena, em direção oposta à de César,… “ao som das cornetas no Campo de Marte” e o incêndio em sua casa. Lustrum encerra com a fuga de Cícero daquela Roma de nenhuma virtude política. Um drama tristemente atual. Excelente. Com descrição de embates políticos e jurídicos e costumes da Roma Republicana no seu ocaso. Recomendo muito, pois há questões bastante atuais. A trilogia prossegue com Diktator.

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