Ficha Técnica:
Título original : “The Condor Years – How Pinochet and his Allies Brought Terrorism to Three Continents”.
Autor: John Dinges.
Tradução: Rosaura Eichenberg
Editora: Companhia das Letras – 2005, Esgotado.
Gênero: História política e governo, terrorismo de Estado, contra terrorismo, relato/reportagem sobre o período de 1973/1980 no Cone Sul da América, em busca de verdade e justiça. Investigação centrada em depoimentos de partícipes, integrantes de estruturas de governo, Chile e USA e documentação antes coberta por sigilo.

O AUTOR: correspondente do jornal Washington Post para a América Latina, radicado no Chile, um observador privilegiado. Viveu a queda do governo Allende e a instalação da ditadura de Pinochet. Encerrada a missão jornalística, passou às atividades investigativas em busca da documentação antes secreta. Esclarece que “quando houve conflito entre documentos e lembranças, atribuiu maior autoridade aos documentos”, que “o caráter secreto não os resguarda da imprecisão, e eles são tão factuais quanto às reportagens e as fontes que as divulgaram”. Recebeu prêmio Maria Moors Cabot, pela cobertura jornalística na América Latina.

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O período histórico: em 11 de setembro de 1973 se deu a queda de Allende e em 21 de setembro de 1976 foi perpetrado o assassinato de Orlando Letelier em Washington, DC, ato que, segundo o autor, marcou o início das operações da Condor. A reunião em que foi fundada a Operação Condor, teria ocorrido em Santiago, em 29 de outubro de 1975, segundo Ata de Fundação encontrada no Arquivo Paraguai. Foi iniciativa de Pinochet que recebeu as autoridades, e conduzida por Manoel Contreras, Chefe do “DINA”, polícia secreta no Chile.

Interesse pelo tema: Notícias jornalísticas de novembro de 2017 sobre o julgamento de militares do RS em Roma, pelo suposto desaparecimento de um cidadão ítalo-argentino, Lorenzo Viñas, em 26 de junho de 1980, em Uruguaiana, Fronteira Oeste. Vinãs seria militante dos movimentos guerrilheiros montoneros e perseguido na Argentina (ver 426 Comissão da Verdade).

O autor inicia com a lembrança da manhã clara de setembro de 1976, em que Orlando Letelier, ex-embaixador chileno teve o carro despedaçado por uma bomba em Washington. Lembra do episódio anterior, em Buenos Aires, no qual resultou assassinado o general chileno René Schneider, em Buenos Aires (Operação Colombo), adversário político de Pinochet, ainda no Governo Allende. Classifica a denominada “Operação Condor” como uma aliança político/militar secreta, inserida na Guerra Fria travada na Europa. Teve início no Chile sob a liderança de Pinochet, para erradicar os inimigos ideológicos em todo o mundo. Foi uma espécie de “efeito dominó invertido”. Os grupos perseguidos proliferavam na região promovendo atos de guerra e de guerrilhas, sob inspiração cubana, de Marx e Che Guevara. Esses grupos mantinham também uma aliança clandestina internacional JCR – Junta Cordinadora Revolucionária. Foi um passo maior do que a mera troca de informações. A Condor foi operacional, incluía sequestro e assassinatos. O autor ultrapassa a litania dos direitos humanos e de forma bastante cautelosa e realista desvenda a participação do governo norte-americano, discreto e apoiador das operações. Quando a Condor pretendeu operar na Europa, disparou o sinal de alerta, tendo só então o Secretário de Estado Henry Kissinger manifestado oposição aos planos.

Algumas operações relatadas são surpreendentes pela violência ou ineditismo. As mortes de Letelier, Renê Schneider e Prats, descritas com detalhes e a quase prisão de Carlos, o Chacal (Ilich Ramírez Sánchez), terrorista venezuelano. Acabou fugindo e praticou logo a seguir o seqüestro sangrento de um jato da Air France, que acabou em Entebbe, Uganda e morte de 83 pessoas. O presidente argentino Carlos Menem concedeu perdão aos militares envolvidos em atos de terror e também aos assassinos do Gen. Prats. Neste passo, tem destaque a atuação de uma jornalista chilena que fez um longo plantão na porta da casa do juiz federal argentino, até obter permissão para examinar os autos do julgamento de Enrique Arancibia Clavel, que levava vida pacata em Buenos Aires. Tais documentos foram centrais para a elucidação de diversos casos. O interesse de um juiz paraguaio, José Augustin Fernandez, permitiu conhecer um importante acervo, denominado “Arquivo do Terror”. O fim da impunidade ocorreu a partir da prisão de Pinochet em Londres, em 1998. Destaque também para a atuação do juiz federal italiano Giovani Salvi, no caso do atentado ao ítalo-chileno Bernardo Leighton.

Entre as várias conclusões a que chega o autor, é de que a “Operação Condor” foi efêmera para a manutenção dos regimes de força. Por outro lado, propiciou a expansão da jurisdição internacional, gerou uma imensa trilha de documentos junto ao governo dos Estados Unidos, antes protegidos por elevado sigilo. O episódio cruel da Guerra das Malvinas precipitou as investigações e punições na Argentina. Sem os documentos liberados pelo juiz argentino à jornalista Mônica Gonzáles não haveria possibilidade de escrever esta triste página da história. Descaracteriza as mortes dos ex-presidentes João Goulart e Juscelino Kubitschek, além de Carlos Lacerda, Eduardo Frei e Joaquim Zentino, como resultantes possíveis de operações da Condor. No Brasil é relacionada uma operação no Rio a fim de capturar dois montoneros que chegavam do México, para levar Horácio Campíglia, e a de um montonero que teria sido capturado na fronteira com o Uruguai.

Conclui, ainda, que teria sido a primeira aliança internacional para travar uma guerra contra o terrorismo. Devem ser examinadas conscieciosamente e compreendidas para evitar a repetição em futuras alianças de combate ao terror. Não estamos condenados a repetir os mesmos erros. Muito bom e atual, pois vivemos uma nova cruzada contra o terror, após o Atentado de 11 de setembro.

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