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ALÉRGICOS: CONTÉM OVO

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ALÉRGICOS: CONTÉM LEITE, CONTÉM LACTOSE
EM CAIXA DE OVOS E CAIXA DE LEITE?

Ainda que correndo o risco de confessar alguma ignorância, que, por ser ignorância, obviamente ignoro, o fato é que sempre que leio tais avisos em certas embalagens não consigo deixar de me perguntar: o que estamos fazendo?
No caso de embalagens de leite, existindo leite de soja entre outros, e mesmo a questão do leite sem lactose, pode-se dizer que faria algum sentido informar, numa caixa de leite do que se trate.
Mas, ainda assim, leite é leite, não é leite de soja e leite contém lactose naturalmente. Já leite de soja ou sem lactose são especificidades que, aí, seria cabível anunciar. E, melhor seria, talvez, que houvesse advertências quando o leite contém soda cáustica, como foi apurado em alguns casos criminosos.
E numa caixa de ovos, advertir os eventuais alérgicos que esta contém ovos, o que significa?
Poderia ser pensado que para, além de zelar pela saúde do consumidor, seria para tentar-se prevenir da hipótese de que alguém, sendo alérgico, comprando desavisadamente (?) uma caixa de ovos, e desavisadamente (??) consumindo os ovos e sofrendo uma reação alérgica venha a ajuizar uma ação de reparação de danos.
E, claro, há previsões legais que exigem certas advertências.
Tudo isso pode ser.
Mas continuo me perguntando: que sociedade construímos, que pessoas estamos sendo e formando quando passa a ser usual colocar em embalagens de ovos ou de leite avisos aos alérgicos (nada contra os alérgicos) de que estas “contém ovos” ou que “contém leite”? Tanto mais se isso for mesmo necessário ou exigido.
Tal perplexidade talvez seja fruto de ignorância de minha parte acerca da grandiosidade e importância dessas advertências.
Ou talvez seja uma inconformidade tão óbvia quanto é dizer que há leite em uma caixa de leite ou ovos em uma caixa de ovos, e outras coisas desse tipo.
Talvez, mas penso que nos devemos perguntar, ainda que pareça redundante, o que está acontecendo e para onde essas pequenas coisas nos levam quanto à responsabilidade e a capacidade de cada um para saber o que está fazendo, o que faz ou deixa de fazer; até que ponto iremos ter a pretensão de tutelar a vida pessoal, por um lado, e responsabilizar terceiros por isso, por outro lado? Entre outras questões.
E este estado de coisas se projeta para temas outros, muito mais relevantes, sendo o exemplo escolhido pela singeleza porquê, assim, se presta a ser posto naquilo que tem de claro, supostamente evidente e objetivo, para exemplificar um estado de coisas, penso eu.

Os textos publicados não refletem necessariamente a opinião da AJUFERGS. O blog é um meio de convergência de ideias e está aberto para receber as mais diversas vertentes. As opiniões contidas neste blog são de exclusiva responsabilidade de seus autores.

2 Comentários

  1. FERNANDA ELIS TEIXEIRA

    Prezado Doutor Guilherme,
    Quando se tem um filho com alergia severa, como no meu caso, meu filho apresentava alergia à proteína do leite da vaca (APLV), sendo que com dois meses de idade e cuidados praticamente extremos, necessitou de hospitalização face à hemorragia gástrica que apresentou, mesmo que com todos os cuidados, observando todas as embalagens de produtos industrializados utilizados por mim que amamentava na época (pois a “contaminação” era transmitida pelo leite materno) ainda que não sendo exclusivamente produtos de origem alimentícia, portanto, leia-se, produtos de higiene inclusive, meu filho apresentou um quadro severo da alergia.
    Os cuidados para com os alérgicos, inclusive os celíacos, são tão rigorosos, pois dependendo do grau de alergia podem causar óbito quando em contato com o agente alergeno.
    A rotulagem dos produtos que indicam conteúdo alergeno possui o intuito de informação, porém, ao rotular todos os produtos é mais viável do que estabelecer quais deveriam ser rotulados, imagino eu, na minha insipiência.
    Assim, quando se necessita de cuidados intensos e extremos no cotidiano, a informação é imperiosa.
    Já questionei para mim mesma sobre a informação contida na caixa de leite, que por óbvio, sinaliza que o conteúdo possui leite, creio eu que no caso de que seja feita a diferenciação de quais serão os produtos que deverão possuir ou não o aviso, seria impraticável, tendo em vista a infinidade de produtos industrializados disponíveis.

  2. Angel

    O óbvio ululante de Nelson Rodrigues de 1950 nunca esteve tão atual. Adorei a matéria !

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