Enquanto os norte-americanos sensatos, mesmo entre os republicanos, lamentam a morte do senador Ted Kennedy, nós, brasileiros, especialmente os sensatos, lamentamos a grave crise de moralidade pela qual passa o Senado Federal.
O histórico de lutas de Kennedy justifica o pesar. Não por integrar o clã que permaneceu em evidência em boa parte da recente história dos Estados Unidos, mas por sua atuação destemida em desfavor da guerra do Vietnã e em defesa dos direitos civis. Inclusive no recente período em que no Brasil vigeu governo autoritário, Ted solicitava informações sobre a violação de direitos humanos, instruindo suas manifestações contra os regimes ditatoriais na América Latina.
Comparações apressadas entre a democracia brasileira e a norte-americana podem incorrer em graves equívocos acaso não relevem as sensíveis diferenças históricas, culturais e sociais. Para esses efeitos, não se imagine que o senado estadunidense seja superior ao nosso. Mas é muito provável que, sob o crivo da moralidade, os gringos nos ganhem de goleada. E a explicação pode ser encontrada exatamente nas diferenças que impedem aproximações precisas entre ambos os sistemas democráticos.
Recentemente a vida pública perdeu um homem do quilate de Jefferson Péres, e os lamentos pela sua morte, embora existentes, não se comparam aqueles hoje dispensados nas homenagens a Ted Kennedy. Também é crível que se algum político norte-americano ostentasse currículo tão qualificado quanto aqueles apresentados por Collor de Mello, Renan Calheiros e José Sarney provavelmente não passasse da primeira eleição.
Será que não sabemos avaliar nossos políticos? Onde estará então a diferença entre os países? Dá para arriscar um palpite: na educação. Para os ianques ela sobra, para nós, falta. Mas não a educação politicamente edulcorada e consolidada pela ditadura, mas aquela voltada à formação de cidadãos.
E se de fato esse é o problema, por que não é resolvido? É por que nossos políticos não querem? Se a resposta é positiva, estará parcialmente correta, e não devemos incorrer no erro de colocar no mesmo saco todos os integrantes da classe política. Na memória gaúcha, está plasmada a lembrança da recorrente luta de Leonel Brizola pela educação. Aliás, atual integrante do partido que fundou, senador que honraria o poder público de qualquer país do mundo, quando candidato a presidente da República, tendo por bandeira a proposta básica de estimular a educação, recebeu votação pífia e muito desproporcional a sua atuação política.
Fala-se tanto em democracia, e nós brasileiros aprendemos a exercer nossa cidadania, no mais das vezes, de forma atabalhoada. O Judiciário está abarrotado de processos, e ainda assim tem ocupado os vácuos deixados pelos outros Poderes. Por que será? É possível que nós brasileiros não queiramos participar mais ativamente das questões coletivas? Na medida em que surgem os problemas, o caminho é atribuir a terceiros imparciais – os juízes – que os resolvam?
Talvez tenhamos muito mais responsabilidades do que imaginamos ou queiramos admitir. Inclusive no triste cenário do Senado Federal. Estamos cuspindo para cima e esperando o escarro em nossos próprios rostos. Enquanto permanecermos nessa inércia, estaremos legitimando os Sarneys, Collors e quejandos. E não haverá santo, remédio, Ted Kennedy ou juiz que resolva.
Gerson Godinho da Costa
Juiz Federal
Diretor Cultural da AJUFERGS
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