O último
domingo marca uma data importante na história
brasileira: comemoram-se vinte anos da promulgação
da Constituição da República Federativa
do Brasil.
No dia 5 de outubro de 1988 foi promulgada a ‘Constituição
Cidadã’, assim chamada por Ulysses Guimarães,
que consolidou a democracia depois de décadas
de regime militar. A nova carta constitucional representou
um documento político avançado e inovador
em matéria de liberdades políticas e direitos
fundamentais. Fundada na dignidade da pessoa humana
e veiculando um projeto nacional de erradicação
da pobreza e redução das desigualdades,
foi comemorada pelo povo brasileiro, confiante e contagiado
pela esperança na construção de
uma sociedade melhor, mais digna e mais igualitária.
O documento original, nesses dois decênios, teve
mais de cinqüenta emendas, algumas efetuando pequenas
correções de rumo e adequações,
outras refletindo medidas de reforma estrutural e das
instituições públicas, orientadas
por tendências de contra-reforma de orientação
conservadora.
Desde aquela data, gozamos de um período de estabilidade
política, dos poderes e das instituições.
Posto à prova por crises políticas que
levaram até a um inédito impeachment do
representante máximo eleito pelo povo, o ordenamento
político jurídico instituído pelo
novo texto constitucional resistiu bravamente e permitiu
a manutenção das instituições
e do sentimento de nação.
No seminário ocorrido na semana passada no Auditório
Dante Barone, promovido conjuntamente por entidades
de classe de auditores fiscais da Receita Federal, juízes
federais, procuradores da república e funcionários
do Banco Central do Brasil, foi promovido um amplo debate
sobre as duas décadas da Constituição,
passado, presente e futuro. Fez-se um balanço
do sistema brasileiro desde a constituinte, sob a ótica
da história, da política, da filosofia,
no aspecto das lutas sociais, do acesso à justiça,
das instituições do Estado e dos sistemas
econômico e tributário.
Encerrou-se o seminário com a avaliação
do tema na perspectiva do futuro, sobre os rumos da
Constituição e do Brasil. De tudo quanto
foi discutido, ficou a conclusão que a efetivação
do projeto político social inserido na Constituição
de 1988 não se desenvolveu da mesma maneira,
avançando em alguns temas e em outros pouco se
materializando, muito ainda faltando ser implementado.
Houve, é certo, avanços significativos
em alguns tópicos, especialmente no que toca
às liberdades públicas, democracia, cidadania,
entre outros. Contudo, em outros aspectos, temos uma
distância enorme entre o que a Constituição
estabelece e a realidade brasileira. Ainda há
muito por progredir em tema de direitos sociais, relativos
a saúde, educação, previdência,
habitação.
Num momento tão significativo, não podemos
deixar de refletir sobre o que é preciso fazer
para concretizar a Constituição, atendendo
as expectativas do povo brasileiro que, com tanta esperança
e júbilo, saudou a Constituição
de 1988.
O caminho para cumprir a promessa constitucional, é
certo, passa pela conscientização dos
direitos, pela garantia do acesso à justiça,
pela maior transparência do serviço público,
pelo redirecionamento das políticas públicas
à priorização do atendimento das
demandas sociais, ensejando real igualdade de oportunidades.
No regime democrático inaugurado pela Constituição
de 1988, o povo brasileiro vem evoluindo, finalmente
livre do medo, no sentido de uma maior conscientização
cívica e cidadã e de maturidade política.
Devemos incrementar essa participação
política e social, de modo que, como sociedade
e povo soberano, nos empenhemos na revalorização
e no cumprimento dos objetivos da Constituição.
Trata-se de manter por parte de toda a sociedade, constante
vigilância e empenho pela aplicação
e concretização das promessas da Constituição,
zelo que deve se manifestar cotidianamente em todas
as esferas, não só por parte dos agentes
públicos e representantes do povo, mas também
por toda a sociedade.
Para efetivar um projeto de tal envergadura, devem nos
servir de inspiração os objetivos e fundamentos
que orientaram os constituintes de 1988, de modo que,
imbuídos do mesmo ideal, caminhemos em direção
à construção de uma sociedade mais
livre, mais justa e mais solidária, tornando
real a Constituição de 1988.
Dra. Carla Evelise Justino Hendges, Associada
da AJUFERGS e Vice-presidente da AJUFE na 4ª Região.
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