A J U F E R G S  N A  M Í D I A
 
RELEMBRAR É PRECISO

 

Três questões tratadas nesta coluna durante o ano passado merecem ser retomadas. A finalidade é apenas solidificar os argumentos nelas traçados. A discussão, ainda assim, permanece aberta. Nada, portanto, de megalomania. Deixemos essa morbidez psicológica aos premiados do ano.

A primeira questão ainda é fervente. Foi tratada na semana passada. Mal cessaram os festejos de final de ano e pela eliminação da CPMF – Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras, e outra facada no contribuinte já foi anunciada. Vitória de Pirro. E o instrumento cortante e perfurante agora é utilizado mais ironicamente. Extinguiu-se uma forma eficiente de tributação para aumentar outras ineficazes.

Parabéns aos nossos líderes políticos. Anda-se feito caranguejo, e a reforma tributária, infelizmente, parece ficar mais distante. O jogo de gato e rato prossegue. Os que hoje se encontram na oposição criticam o que antes parecia bom, enquanto que aqueles que desfrutam da situação elogiam o que antes lhes parecia ruim. E assim prosseguimos, ou para trás ou no mesmo lugar como numa bicicleta ergométrica.

A outra questão está relacionada à necessidade de mais educação e menos leis. Ou o contrário. Aos desdobramentos. Primeiro deles. Na coluna do dia 24 de dezembro foram tecidas considerações sobre medidas legislativas cujo escopo é o de conter o uso de aparelhos celulares em salas de aula. Muito elogiável a atitude da Assembléia gaúcha, atuando em proximidade aos anseios dos educadores. A medida é que não parece adequada, o que não desmerece o trabalho dos deputados. E por que da inadequação? Por que as pessoas precisam ser educadas. Não com leis.

Voltando ao caranguejo, algumas praias têm espalhado placas solicitando que o lixo não seja deixado nas areias ou jogado no mar. Algumas inclusive contam com o valioso préstimo de auxiliares, voluntários ou contratados, que distribuem sacos e solicitam maior cuidado com o lixo. Não é preciso lei estabelecendo multa ou qualquer outra penalidade – no mais, de difícil cumprimento – para conscientizar as pessoas que todas têm responsabilidade por manter a praia limpa.

Isso parece tão óbvio! Não jogar lixo no chão. Poderia poupar o trabalho de tanta gente bacana que se preocupa com isso. Afinal estamos no século XXI. Mesmo assim há aqueles que preferem deixar o lixinho lá. Seja a espiga do milho, a latinha de cerveja ou mesmo garrafas, algumas vezes estilhaçadas para machucar os transeuntes descalços. Tudo indica que esses sujeitos já estejam com os dias contados. Muita gente olha de maneira antipática e até reclama diretamente para esses guerreiros da sujeira. Isso dali a pouco deve servir. Mas é claro que o litoral não se livrará de todos eles. Há os que continuarão empestando, dia e noite, não apenas as praias, mas também as cidades. Congratulações pela insistência em continuarem mal-educados.

Possivelmente são eles mesmos que conduzem veículos colocando em risco a vida dos demais cidadãos. Nesta coluna, durante o ano, foi tratado, algumas vezes, o problema do trânsito. Nenhuma novidade. Apenas juntou-se às vozes de autoridades e meios de comunicação pedindo por maior racionalidade no tráfego. Não adiantou. Apenas no feriadão de Natal, cento e noventa e seis brasileiros morreram nas rodovias federais. Tão somente nestas mesmas estradas que cortam o solo sul-riograndense, trezentas e sessenta e uma pessoas morreram em 2007.

Aqui o caso parece ser mesmo de lei. Apesar de muita educação, ainda deve haver repressão. É bom que o Ministério da Justiça manifeste preocupação. Que se discuta as medidas mais apropriadas e que sejam impostas o mais breve possível. É salutar que permaneçam as campanhas de conscientização, especialmente aquelas dirigidas às crianças nas escolas. Mas é inviável aguardar os efeitos desses métodos. É preciso salvar a vida de muita gente antes de ver esses resultados. Neste caso, o trabalho conjunto da educação com a severidade da lei é necessário. Parabéns, pois, aos vegetais cujos galhos não seguram o volante, o cérebro foi substituído por folhas e as raízes afundam o acelerador.

Por fim, é imprescindível reiterar que a compreensão da violência policial não combina com seu assentimento. Para muita gente o grande mérito do filme ‘Tropa de Elite’ foi provocar a discussão acerca de como surge e como deve ser combatida. O capitão Nascimento não é herói! A adoção das práticas mostradas no filme ainda não deixou de ser tortura. Havendo tortura há crime. Havendo crime, deve haver punição, não importando a condição social ou carteira do sujeito.

Se algum fascista acha o empalamento bacana, antes de fazer com os outros, experimente consigo mesmo. Peça a algum amigo ou conhecido. Dá para apostar que não vai achar nenhuma graça. Também a eles congratulações pelo desserviço prestado às corporações policiais.

Parabéns a todos que de uma forma ou de outra fizeram com que se reforçasse o sentimento de que é difícil acreditar no ser humano. Prossegue o embate com aqueles que lutam por um mundo melhor. Torço com todas as minhas forças para que estes, ao final, vençam.

Gerson Godinho da Costa
Juiz Federal
Diretor Cultural da AJUFERGS

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