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Como tive o prazer de visitar a Espanha recentemente, talvez devesse tratar do assunto recorrente do momento, brasileiros barrados aos borbotões na tentativa de ingressar em território espanhol.
Entretanto, muito a respeito do tema já foi escrito, e não teria nada a acrescentar senão que reforçar o argumento de que direitos humanos estão sendo desrespeitados. Uma coisa é não permitir o ingresso de estrangeiros em seu país, outra é, a par da deportação, tratá-los de forma indecente. Está certo o governo brasileiro em reclamar. Apenas causa estranheza o fato de manter uma postura com relação à Espanha e outra bem distinta com outros países.
Uma pessoa conhecida, fazendo escala em Londres, referiu que os ingleses se assemelham muito aos espanhóis no tratamento dispensado a brasileiros que lá pretendem ingressar. E a frieza dos números indica: é mais complicado entrar na Inglaterra do que na Espanha. É difícil saber por que não se dá a mesma dimensão já que a natureza do problema é idêntica. Também é complicado saber o porquê do tratamento desrespeitoso norte-americano, auto-intitulado, com o assentimento de alguns governantes, dono do quintal latino. Quem pretende apenas encher os cofres da Disneylândia somente pode obter visto na embaixada em São Paulo.
Renomado jornalista sugeriu que a represália às atitudes das autoridades espanholas tem por motivo o pito que o rei passou no arremedo de ditador venezuelano tempos atrás. Pouco provável. Para os interesses da política externa brasileira parece que Chávez incomoda muito mais do que o governo espanhol.
Mas como disse, não gostaria de escrever sobre o tema e já me estendi muito a respeito. Ele apenas serve de gancho para a discussão de um modelo. Especificamente um modelo de transportes. Apesar do mal-estar momentâneo entre os países, seria bom dar uma olhada em como os espanhóis – e não só eles, mas boa parte dos europeus – cuida dos transportes.
Constatação: há trem para tudo quanto é lado. Inclusive no espaço físico das cidades. Em Barcelona, é possível se dirigir a qualquer lado somente de metrô. No centro de Roma, há uma estação onde se pode ir para qualquer lugar da Itália, inclusive outros países da Europa. Resultado dessa opção: o transporte é muito mais barato.
Uma mercadoria produzida em local distinto ao do seu consumo implica na introdução, no seu preço final ao consumidor, do valor gasto com o transporte. Aí se inclui não apenas o trabalho do motorista, normalmente mal remunerado e submetido a jornadas absurdas de trabalho, precisando, para manter-se atento à direção, ingerir substâncias psicotrópicas ou outras nada saudáveis misturas como o conhecido ‘rebite’. O adquirente do produto também paga pelo combustível, pela manutenção do veículo (pneus, freios), pelos pedágios, pelo risco dos assaltos etc. Imagine quanto se economizaria se o transporte fosse realizado por intermédio de trem. Há estimativas de que o custo seria de trinta a quarenta por cento menor. Isso sem falar no transporte hidroviário, pelo qual se fala que seria possível economizar até setenta e cinco por cento do custo do transporte.
Também é menos perigoso. Se boa parte dos acidentes é causada pela imprudência dos motoristas, também é fato que ante o expressivo número de veículos circulando, proporcionalmente os acidentes aumentam. Sempre haverá algum gaiato pronto para argumentar que às vezes morrem centenas de pessoas em tragédias com trens ou embarcações. Correto. Nenhum meio de transporte é totalmente seguro. Mas dá para apostar que o número de pessoas vitimadas no mundo inteiro, pelo período de um ano, não é maior que o de vítimas no trânsito brasileiro.
Além de menos custoso e perigoso, o transporte ferroviário ou hidroviário é menos poluente. Se é certo que o planeta submete-se constantemente a alterações climáticas, fato é que essas mesmas alterações são substancialmente aceleradas pelos mecanismos humanos poluentes. E um dos fatores que mais contribui para esse quadro é a incontrolável utilização de veículos automotores. E não nos enganemos, as pontuais medidas antipoluentes adotadas saem do nosso bolso, não pela postura caridosa e preocupada de alguma corporação petrolífera ou automobilística.
Há elogios incondicionais ao presidente bossa nova, Juscelino Kubitschek. Tem muito exagero nisso. As idéias desenvolvimentistas por ele encampadas seguiram viés de mão única, exatamente para onde apontavam os norte-americanos. Disso resultou uma dependência desse meio de transporte que praticamente inviabilizou outras formas. É grande o tempo perdido. Ainda assim não adianta cruzar os braços e esperar o tempo passar como se nada pudesse ser feito.
Quem não se convenceu com esses argumentos deve ser lembrado que um dia o petróleo acaba. E já tem gringo de olho nas pesquisas de biodiesel para perpetuar a maléfica dependência econômica. Cabe aqui também imitar o slogan republicano espanhol – ou mais recentemente as autoridades aeroportuárias – e bradar: ‘no pasarán!’ Paradoxalmente, em benefício do próprio desenvolvimento do nosso país.
Gerson Godinho da Costa
Juiz Federal
Diretor Cultural da AJUFERGS
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