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Otfried Höffe propõe, em seu conhecido e reputado livro Justiça Política, a necessidade de corrigir os fundamentos filosóficos do Estado, com a intenção de emprestar-lhe maior legitimidade. Preconiza, para tanto, que a ética não seja dissociada da política. Acaso pretendesse sustentar empiricamente sua tese, estaria o Brasil disponível ao erudito. Através dele, Höffe poderia comprovar que sem ética é impossível construir um Estado Democrático de Direito respeitável.
Os últimos tempos são pródigos em demonstrar a mais absoluta falta de ética nas relações institucionais. Escutas ilegais, maletas que não existem, dinheiro em roupas íntimas. Sobrou recentemente até para a área cultural, até pouco tempo protegida das investidas da improbidade.
Ainda assim, é preciso salientar que não estamos diante de nenhuma novidade. A corrupção, exemplo não apenas de ilegalidade, mas, igualmente de imoralidade, não nos atinge de agora. Há muito, desde antes de nossa maioridade nacional, que permanece baralhada com o poder político. E sempre que estamos diante de crises, ou seja, oportunidades em que novas falcatruas são expostas ao público, surge a promessa de que a partir de então a situação deve melhorar. Pura falácia. Mise-en-scène. Circo, ainda que falte o pão.
Seguimos felizes os discursos dos novos paladinos da moralidade, os quais se encontram em evidência nesse período eleitoral. E ao sermos bombardeados por um extenso rol de supostas irregularidades, não nos é permitido refletir acerca dos acontecimentos que sucedem, ou mesmo lembrar de outros ocorridos em passado recente. Assim é que engolimos, ainda que com certo desprazer, pencas de candidatos com suas inumeráveis promessas. Eventuais envolvimentos em irregularidades não são relevantes, desde que se apresente ao público seguindo as regras dos manuais publicitários da boa aparência.
Não cessam os discursos para encher de retórica a barriga vazia dos famintos ávidos por comida, educação, saúde, segurança, etc., que acompanham de longe as estripulias daqueles alçados a condição de representantes. Os comprometidos com outros valores, que não os extraídos do próprio umbigo, terminam prejudicados e limitados no compromisso de construir uma sociedade menos injusta.
De qualquer forma, em época de eleições é preciso ter muito cuidado com o que se comunica. Daqui a pouco algum oportunista pega um trecho aqui, um excerto acolá, e distorce o discurso do sujeito comunicador com o objetivo de obter alguma vantagem. Nunca é demais afirmar, a nódoa da imoralidade não é particular aos atuais governos, federal, estaduais ou municipais. É endêmica. O fato de alguns escândalos virem à tona, decorre mais da inabilidade dos detentores do poder político de ocultá-los, do que propriamente da real vontade de esclarecimento e depuração.
O historiador Ian Kershaw escreveu um profundo estudo onde procura desvendar ter sido Hitler erigido ao poder em razão de sua atuação individual, ou por conta de um especial contexto social. Por simetria, cabe-nos indagar: a imoralidade no poder político brasileiro decorre da ausência de ética de parte daqueles que o exercem, ou estes são apenas reflexo da sociedade?
Muitos podem não gostar da resposta, mas é possível que a segunda opção seja a correta. Um dos desdobramentos do conceito de 'homem cordial' de Sérgio Buarque de Holanda resulta exatamente dessa negligência do brasileiro no trato das questões de natureza pública. O que importa é o 'eu', o 'meu' ou o 'nosso', o 'jeitinho brasileiro' ou o 'sabe com quem está falando', observado por Roberto DaMatta.
O que nos satisfaz é que essa lógica pode ser invertida. Basta que no conceito de 'nosso' incluamos o 'público'. Quando nos dermos conta de que o dinheiro desviado aos bolsos dos corruptos é aquele que deveria se prestar ao atendimento às exigências dos cidadãos, altera-se o quadro que hoje se observa.
Problema é que para implementar esse tipo de postura, é preciso muita educação, especialmente uma forte formação cívica e cidadã. Além de uma postura crítica a respeito de nossas ações. Enquanto competirem todas as atribuições aos políticos, inclusive a de eximirmo-nos de toda e qualquer responsabilidade, infelizmente a tendência é que fique tudo como está.
As soluções devem partir, portanto, de cima para baixo. E nada mais oportuno do que as próximas eleições. Os resultados das urnas podem mostrar o evidente abatimento do respeitável público e que mudanças são necessárias. Enfim, a mudança deve começar pelos eleitores.
Gerson Godinho da Costa
Juiz Federal
Diretor Cultural da AJUFERGS
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