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É oportuno indagar se os direitos humanos têm faces distintas. Imagina-se que a maioria das pessoas possua a resposta na ponta da língua. Não! A cara dos direitos humanos é única. Independe dos humores de quem ou contra quem são invocados. Infelizmente não é o que se verifica na prática.
Parece básico, para quem sonha com uma sociedade mais justa e fraterna, que o respeito aos direitos humanos é expediente básico e imprescindível para viabilizar esse projeto. Por isso que, em qualquer cenário e em benefício de todos, os direitos humanos são continuamente mencionados. Inclusive nas situações em que a aspiração em comento passa ao largo. Normalmente uma pitada de direitos humanos é indispensável para elaboração de um texto ou comentário. Problema é que se na planilha do engenheiro ou no projeto do arquiteto os direitos humanos são figura certa, na labuta do pedreiro estão longe de ser realidade.
Pior é o discurso hipócrita que institui como suposta verdade a idéia de que os direitos humanos constituem propriedade de alguns. É salutar a postura de muitos dos que criticam as estripulias do governo Bush em solo iraquiano. Curioso é o silêncio que boa parte desses mesmos críticos mantém em torno da atitude da China com relação aos tailandeses.
Parte da esquerda parece não ter aprendido a lição do stalinismo. Bradavam aos quatro ventos o terror fascista quando práticas semelhantes eram adotadas debaixo de suas próprias barbas. Se de um lado, muitos retrógrados imbecis, que veneram o deus-mercado, não reconhecem medidas interessantes nas áreas da saúde e da educação em Cuba, de outro, alguns com eles se assemelham pela imbecilidade de não reconhecer os excessos do regime castrista.
Para esses idólatras do laissez-faire e da ditadura revolucionária assim caminha a humanidade. Na direita ou na esquerda. Não se releva nenhuma outra trilha onde não é empunhada a bandeirinha ideológica de um ou de outro.
Os que estão com Bush apóiam qualquer atrocidade que seu séquito pratica, ao vivo e a cores ou nos bastidores. Tapam os narizes para não sentirem o cheiro de petróleo que banha os claros interesses de oligopólios norte-americanos, ao mesmo tempo em que viram o rosto para o sem número de situações que apresentam as mesmas premissas que autorizaram a invasão do Iraque. Com ou sem o respaldo da ONU. Já que se falou em lição, aquela que a história nos legou depois da carnificina nazista fica relegada ao faz de conta de desconsiderar o velado apoio que o mundo capitalista prestou aos malucos que demoliram com a Europa. Os números posteriores ao cifrão não são incompatíveis com os direitos humanos, desde que estes não atrapalhem o crescimento contínuo daqueles.
Os que aplaudem as conquistas alcançadas em Cuba em regra admitem com benevolência a figura sanguinária de Stálin. Se houve alguns excessos, foi para o bem da revolução. Cercear a liberdade de pensamento ou de opinião é necessário para assegurar a igualdade que garante a fome do pessoal do andar de baixo. Quem está no cume dessa relação de duas alturas goza de privilégios porque alegadamente representa a vontade da galera, coincidentemente gerada pelo terror. Algo como um companheirismo de duas vias.
Assim fica o desrespeito aos direitos humanos, feito bola de pingue-pongue. A direita manda para a esquerda e esta devolve. O jogo prossegue indefinidamente enquanto assistimos impassíveis. Apenas de vez em quando a arena em que sucede é diferente. Deixou de ser na finada União Soviética. Ainda é no Iraque. Mas agora também é na China.
Alguns que apreciavam a doutrina do irmão Mao disfarçavam quando alguém levantava a lebre da repressão massiva. Outros acrescentavam que, na China, não se mascava chicletes ou se usava calça jeans. Exemplo de manifesta violação dos direitos humanos. Como atualmente além do chiclete e do jeans, na China também se come cheeseburger com milk-shake, esse pessoal mudou de opinião. É o país cuja economia mais cresce, dizem. Maravilha! Ainda que chineses observem jornadas de trabalho desumanas, que os produtos exportados não têm qualidade suficiente a garantir que crianças brinquem em segurança e que os tibetanos permaneçam sem liberdade.
Como aqueles monges com roupas estranhas, dedicando-se o tempo todo às orações, são perfeitamente dispensáveis na lógica do capitalismo selvagem e do socialismo a qualquer preço, ninguém acaba dando atenção para eles. Seja atualmente, na China meio capitalista, seja antes, na China meio comunista. Dá para afirmar que os direitos humanos não têm face? Não variam de acordo com o freguês?
Assim não deveria ser. Mas infelizmente assim o é. Pelo menos não se ouviu de nenhum governante, mais ou menos à direita ou à esquerda, no mínimo sugerir que as Olimpíadas sejam boicotadas. Pode até ter cogitado. Mas aí tem cota de televisão, o patrocínio dos atletas, o dinheiro investido nos complexos esportivos, etc.
É preciso admitir para tentar alterar essa situação. Os direitos humanos têm cara. Atualmente permanecem com o cifrão estampado no rosto. Pobres monges tibetanos. Não são de esquerda, não são de direita. Os direitos humanos para eles têm a face desfigurada. Assim como as caras deles, marcadas pela violência e pela desídia.
Gerson Godinho da Costa
Juiz Federal
Diretor Cultural da AJUFERGS
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