Segundo o zoólogo britânico Richard Dawkins, na obra Ancestor’s Tale, 70% dos genes críticos ao desenvolvimento embriológico dos seres humanos e das moscas são idênticos. A pesquisa revela, ainda, que 99,4% dos genes críticos, os que codificam proteínas, e 98,4% de DNAs sem função aparente, são análogos em homens e chimpanzés.
Dawkins, que recentemente causou polêmica com a publicação do livro ‘Deus – um delírio’, não menciona qual a porcentagem de identificação dos genes de homens e perus. Considerada a escala de evolução animal, como a ave situa-se entre os insetos e os primatas, qualquer número entre 70 e 99,4% pode expressar a similaridade genética de homens e perus.
Não foi por isso que o presidente norte-americano, George W. Bush, perdoou os simpáticos perus May e Flower. Como a ave constitui o prato principal do Dia de Ação de Graças, é tradição que o mandatário livre da mesa duas aves, que, a partir de então, viverão tranqüilas e felizes na Disneylândia. Nada contra esse peculiar costume, o qual deita raízes nos princípios da história estadunidense. Pelo contrário, sua mística é belíssima, devendo sua prática ser incentivada, assim como outras espalhadas ao redor do mundo.
Entretanto o presidente Bush poderia levar em conta a proximidade genealógica de homens e perus para, livrando os segundos da panela, também preservar alguns dos primeiros das mais variadas violações.
Por exemplo, ao que consta, enquanto governador do estado do Texas, o presidente Bush não livrou nenhum condenado da pena de morte. Tal lhe era facultado. Mas a empatia com os perus, infelizmente não surgiu com relação aos condenados.
Inexistem dados verossímeis a respeito da eficácia da pena de morte para redução da criminalidade. Por outro lado, há indícios de que a violência recrudesce, pois o infrator não tendo expectativa de viver, emprega todos os meios disponíveis para livrar-se da ação da autoridade. Ademais, há o risco de condenar um inocente. Por que então libertar o peru e ceifar a vida humana?
Aprovem ou não os vegetarianos, fato é que o peru, depois de morto, é alimento. O mesmo não pode ser dito do ser humano, exceto para algumas comunidades canibais, se é que ainda existem. Portanto, torrado na cadeira elétrica, puro por enforcado ou temperado por envenenamento, o cadáver não serve para nada, senão que para estudos científicos. Por que então livrar o peru e abater a vida humana?
Alguém afirmará triunfalmente que perus não cometem crimes. Correto. Normalmente homens são condenados à morte pela prática de homicídio ou estupro. Não se imagina um peru praticando ‘perucídio’, quiçá homicídio, muito menos estuprando peruas. Mas cabe indagar, todos os homicidas e estupradores devem ser condenados à morte? Ou alguma diferenciação de grau entre esses delitos, autoriza para alguns a pena capital, enquanto para outros, sanções mais brandas ou mesmo a indiferença?
A discussão da legitimidade da suposta existência dessa diferenciação é pressuposto para o ingresso em outra controvérsia. Há guerras justas ou injustas? Ou reformulando o questionamento, há justificativa para alguma guerra? Pelo que nos afirma a história, sim. Basta recordar a necessária e festejada vitória dos Aliados sobre os países do Eixo, de ideologia nazi-fascista, na Segunda Grande Guerra. Mas e quando a guerra se presta à simples extensão de domínios geopolíticos?
Quem pensa que a guerra no Iraque resume-se ao extermínio de grupos e facções terroristas está enganado. O pretexto da invasão foi esse, mas o real motivo é o controle próximo das bases petrolíferas. Alguns sinais emitidos por gente da Casa Branca indicam que o quintal norte-americano deixou de ser a América Latina. O cuidado agora deve ser com o Oriente Médio. Se o establishment estadunidense mantivesse preocupação com os latinos, como nos anos sessenta e setenta, quando sustentou a derrocada de governos democraticamente eleitos como de João Goulart e Salvador Allende, é provável que o fanfarrão do Hugo Chávez já estivesse, há muito, afastado do poder.
São interesses econômicos ditando a guerra. São seres humanos morrendo aos milhares para salvaguarda desses interesses. É a violência e a barbárie, enquanto formas dialógicas da guerra, liberadas sexualmente pelo estupro em cenário no qual devem sair vencedores esses interesses. Seria a guerra, em defesa desses interesses, legítima? Quem fomentou essa guerra? Seus autores não seriam responsáveis pelos homicídios e estupros que sucedem durante seu desenrolar? Seriam eles passíveis da pena de morte?
Como afirmado inicialmente, é salutar que os povos celebrem suas tradições. Se salvar perus inclui-se nessa perspectiva, estrangeiros não tem nada a ver com isso. O que não dá para entender é que enquanto se festeja, com pompa, circunstância, risinhos e muita hipocrisia a libertação do peru, seres humanos morrem e são estuprados sem qualquer justificativa legítima. E sem punição para os responsáveis.
Gerson Godinho da Costa
Juiz Federal
Diretor Cultural da AJUFERGS
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