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Os meios de comunicação têm noticiado, com freqüência, os bastidores das prévias eleitorais norte-americanas, as quais definirão os dois principais candidatos à presidência daquele país. E é flagrante, pelo menos no Brasil, maior enfoque ao Partido Democrata.
Não surpreende o fato de os holofotes estarem voltados a Barack Obama e Hillary Clinton. Afinal, depois de quase uma década de desmandos do governo Bush Jr., chegou a vez dos democratas. Mais que isso, há a possibilidade de, pela primeira vez na história daquele país, ser conduzido ao mais alto cargo daquele país um negro ou uma mulher.
A par da inovação cumpre, neste momento, reiterar algumas indagações preparadas quando da reeleição do Sr. Bush (isto para citar apenas alguns eventos que despertaram reparos a nível mundial): qual será a postura do novo governo? Quais serão seus objetivos a nível internacional? Estarão voltados à segurança interna dos ianques ou para a expansão econômica dos Estados Unidos? Terão por finalidade assegurar de forma igualitária os interesses de brancos, negros, ‘chicanos’ e estrangeiros? Manterão inacessíveis os presos mantidos na base militar de Guantánamo?
Somente a expectativa de alteração de partido no comando daquela nação já denota a idéia de que alguma coisa, ainda que ínfima, pode melhorar, dado o incontestável caráter mais conservador dos republicanos. E seus reflexos são sentidos pelo mundo afora. Basta lembrar que a economia mundial está em pânico por conta de problemas internos do mercado norte-americano.
No plano geopolítico, observada a linha do governo adotada por Bush filho, não é possível esquecer as palavras de John Rawls, na obra ‘O Direito dos Povos’: “... os Estados Unidos derrubaram as democracias de Allende no Chile, Arbenz na Guatemala, Mossadegh no Irã, e dos sandinistas na Nicarágua. Quaisquer que sejam os méritos desses regimes, operações clandestinas contra eles foram levadas a cabo por um governo movido por interesses monopolísticos e oligárquicos, sem o conhecimento ou a crítica do povo.”
Mesmo admitindo que sejam defensáveis os ideais patrióticos dos norte-americanos — o que lhes confere, sob determinada ótica, legitimidade — algo de bom parece surgir na democracia do Tio Sam. Decerto nenhum norte-americano desconhece a atuação militar de seu governo no Iraque ou no Afeganistão, e que isto pode estar contribuindo sensivelmente para os problemas econômicos do país. Talvez por esses motivos, está na iminência de vencer a postura mais democrática em detrimento daquela francamente militarista e xenófoba.
Apesar dessas esperanças de mudança, que ao final podem restar, sem qualquer surpresa, frustradas, ainda há muito caminho a percorrer. Na eleição anterior, a manipulação do medo, habilmente conduzida pelos republicanos, foi o fator mais importante que determinou sua recondução ao poder. Tristemente, os atentados de 11 de setembro prestaram-se como eficiente instrumento manipulador. A história demonstra que esse tipo de operação não é inovador. É suficiente recordar os excessos praticados por conta da ‘Guerra Fria’. Por intermédio do medo, foi possível legitimar ações intervencionistas, sejam elas passadas, presentes ou futuras.
O atual estado da economia americana não poderia beneficiar os atuais detentores do poder, por conta da manipulação da paranóia popular? Paradoxalmente é claro, em virtude da contribuição dos republicanos que levaram o país a essa situação. Ainda assim, o medo é irracional, dispensa maiores reflexões. Daí o porquê de as eleições ainda estarem indefinidas. Além disso, o arraigado preconceito de amplas parcelas da população, lamentavelmente, pode trabalhar em desfavor da eleição de um negro ou de uma mulher.
Portanto, que permaneçam em alerta as democracias dos estados periféricos. Igualmente, apreensivos devem ficar os defensores dos direitos humanos. Ora, havendo despreocupação quanto à democracia dos outros, para que lhes respeitar os direitos? Indício veemente desta assertiva é a recusa do governo Bush em assumir os compromissos relativos ao Tribunal Penal Internacional, que visa a tutela de direitos humanos, ou ao Protocolo de Kioto, referente à proteção ambiental.
Enfim, embora territorialmente distante, as preocupações em torno das eleições norte-americanas não deixa de ser mais um problema para os brasileiros. Está em pauta a viabilidade de um novo projeto de governo cujas influências serão sentidas no mundo todo. Claro que nem tudo são flores. A evolução pode ser, como afirmado, irrisória. Ainda assim é alguma evolução. E no plano dos direitos humanos é presumível que, pelo menos, não se repita algo parecido ao “patriotic act”. Já é um avanço.
Gerson Godinho da Costa
Juiz Federal
Diretor Cultural da AJUFERGS
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