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Tenho uma bebê de três meses em casa. Como sempre acontece nestas ocasiões, recebo ainda visitas de amigos, e os tradicionais votos de saúde e felicidade para a recém-chegada. E, da mesma forma do que quando nasceu a minha primeira filha, tenho pensado muito no porvir.
Nas madrugadas, quando a bebê reencontra seu sono, e constato, resignado, que o meu perdeu-se entre fraldas e mamadeiras, busco refúgio nos livros. Outro dia deparei-me com os versos que John Donne esculpiu em tempos idos: ninguém é uma ilha, estamos todos interligados. A perda de um ser humano - ou a sua perdição - é também a nossa perda, razão pela qual não devemos indagar por quem os sinos dobram: toda a humanidade morre, um pouco, quando uma vida se perde.
E o meu pensamento divaga para as tantas vidas em risco, neste Brasil tão vasto e tão desigual, eu que trabalho ao lado da vila Chocolatão e resido bem próximo da paupérrima comunidade que, pouco a pouco, vai sendo afastada pelas obras do novo shopping. E pensando nos votos – não somente nos de saúde e felicidade, mas naqueles que serão desferidos nas urnas eletrônicas no próximo dia cinco – chego à seguinte conclusão: desejo a todos os bebês recém chegados um futuro permeado de bons políticos, de gestores engajados na promoção do bem comum e na aplicação responsável dos escassos recursos públicos. Políticos que se preocupem menos com demagogia e assistencialismo, canalizando suas energias para o debate responsável dos grandes problemas nacionais; administradores que tratem o dinheiro de todos com a acuidade e a diligência que tratariam o seu próprio (e, obviamente, sem confundi-los); agentes públicos, enfim, que possam promover uma integração entre pessoas e comunidades insuladas pelo abandono, porque parte considerável dos malogros individuais, ou das grandes tragédias coletivas, têm a sua origem no equívoco na formulação de políticas públicas, na sua execução mal intencionada e, principalmente, na simples e absoluta ausência de qualquer ação governamental.
Há algum tempo, contou-me uma médica comunitária que o posto de saúde em que atende está assoberbado de indutores de fertilidade, mas que a toda a hora faltam anticoncepcionais. E os versos de Donne voltaram a soar, retumbantes: estão interligadas as crianças que nascem porque a remessa de pílulas falhou e as que são resultado de complexas operações em sofisticadas clínicas de reprodução assistida. Não se encontrarão nas filas do SUS, nem disputarão vaga nos colégios públicos dos arrabaldes, mas habitam o mesmo tecido urbano, em crescente deterioração. Poderão finalmente encontrar-se numa sinaleira, numa ocasião menos feliz. E, ainda que se construam muralhas e castelos, a visão por detrás de ameias e vidros blindados prosseguirá trazendo fastio e culpa.
E aqui voltamos ao início. Em países como o Brasil, políticos e gestores públicos têm muito mais influência na infelicidade das populações do que nos países desenvolvidos. Há muito se conhece tal verdade. Aristóteles já enunciava a responsabilidade dos políticos pela bem-aventurança das populações, e ainda no século XVIII a Constituição Americana definia a busca da felicidade como um direito inalienável do cidadão. E é por isso que agrego aos tradicionais votos de saúde e sucesso uma quimera: o desejo de que os nascidos em 2008 possam ter ao alcance do voto, ao completar dezesseis anos, uma plêiade de candidatos diligentes e honestos, aptos a legislar com coragem e altivez, bem como formular e executar políticas públicas de qualidade.
E que a voz do povo reflita, finalmente, a voz de Deus.
Marcel Citro de Azevedo é juiz federal da 4ª Região.
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